Vício Inerente (Inherent Vice)

Desde que conheci a obra do diretor Paul Thomas Anderson (quando assisti a Magnólia – provavelmente sua obra prima), me apaixonei pelo modo como ele faz de seus filmes uma experiência envolvente – sua câmera virtuosa incansavelmente movendo-se pelos ambientes e pelos personagens, o também constante auxílio da trilha sonora dando o tom das cenas -, enchendo nossos olhos de um ambiente exuberante, cheio de energia e ainda assim carregando leveza e liberdade na trama que dá aos seus atores as condições perfeitas para entregarem performances excelentes. Estava então cheio de ansiedade em relação a esse novo projeto de PTA, contando os dias e tudo o mais.

Vício Inerente foi adaptado do romance homônimo de Thomas Pynchon, autor contemporâneo estadunidense cuja obra, dizem, costuma abranger uma variedade enciclopédica de temas (quase tudo mesmo, matemática, física, química, filosofia, psicologia, cultura popular, história etc) e os envolver em uma trama complexa, poética, absurda, humorística e paranoica.

A trama de Vício (ou melhor, como ela começa) é o seguinte: É o início dos anos 70 em Gordita Beach (praia fictícia na Califórnia) e Larry ‘Doc’ Sportello (Joaquin Phoenix), um detetive particular hippie gamado numa erva (embora não rejeite um pó), recebe a visita de sua ex-namorada Shasta Fay Hepworth (Katherine Waterson) que lhe fala de seu atual amante Mickey Wolfmann (Eric Roberts), “tecnicamente judeu mas que quer ser um nazista” e um milionário do ramo imobiliário, e pede a Doc para tentar impedir um plano, aparentemente orquestrado pela esposa de Wolfmann, de colocar Mickey em um asilo e pegar seu dinheiro. Não é apenas por profissionalismo que Doc concorda em ajudar Shasta: ele ainda nutre um grande amor pela moça. E eventualmente, ela também acaba sumindo. A partir daí, cada cliente novo de Doc parece ter uma ligação com o caso da ex – há Tariq Khalil (Michael K. Williams), um negro que pede a Doc para sanar uma dívida que um membro da Irmandade Ariana que trabalha para Mickey tem com Khalil; há Hope Harlingen (Jena Malone), convencida de que seu marido Coy Harlingen (Owen Wilson) não está morto como todos pensam – mais adiante descobrimos que Coy, um saxofonista, se envolveu e está preso a um programa de informante para a polícia e um grupo de militantes contra o presidente Nixon, e, principalmente com o Canino Dourado… E o que é o Canino Dourado? Esse é um dos grandes mistérios do filme e que mantêm nosso herói em constante estado de paranoia, pois todos os casos citados – e muitos outros – mantêm alguma relação com o que alguns dizem ser um barco, outros um sindicato de dentistas, outros ainda um cartel que controla a distribuição de heroína na cidade… E essa é apenas a superfície de tudo o que ocorre nessa trama que se complica a cada segundo.

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Na cola de Doc está sempre o detetive Christian F. “Bigfoot” Bjornsen (Josh Brolin), que tem esse apelido por chutar a porta dos suspeitos que investiga e nutre um ódio profundo pelos hippies – assim, Doc é um alvo fácil para ele, que em todo o tempo o tenta impedir de seguir com seu trabalho, além, é claro, de zombar e mexer com suas emoções nas horas vagas. A interação que os dois demonstram em cena é tanto de repulsa como de uma identificação não demonstrada de espontânea vontade por nenhum deles – como se, além do trabalho em comum, os dois sentissem a mesma sensação melancólica de estar vivendo em mundo de confuso, de cabeça para baixo (a última cena com os dois, a que finalmente vemos o porquê de Bigfoot ser chamado dessa forma, desce com um gosto agridoce e um aperto no coração…).

Paira sobre o filme, como a névoa que cobre algumas cenas, elementos sombrios e em rápida mudança da história dos USA, algo que aumenta a sensação de se estar vivendo sob um período que em cada caminho percorrido, cada curva, algo ameaçador surgirá e apagará os traços do passado. Como dito ao final do filme: “E contudo não há como se evitar o tempo, o mar do tempo, o mar da memória e do esquecimento, os anos de promessa, passados e irrecuperáveis, da terra a que quase foi permitido pedir o seu melhor destino, apenas para que o seu pedido fosse impedido por malfeitores mais  que bem conhecidos, e que em vez disso acabou levada e mantida como refém de um futuro em que agora devemos morar para sempre.”

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O filme todo funciona também como que sob o efeito de drogas: as atuações, o arranjo dos cenários, tudo é elevado a um nível quase exagerado, caricato, a ponto de que percebamos a história pelo ponto de vista do protagonista: impressionado demais, embaralhado, com elipses que a memória enfumaçada cria (uma das cenas mais engraçadas é a em que Doc recebe uma foto do bebê de Hope, dá um berro, e ela continua sorrindo, inalterada). O mais bacana é que o filme flui de forma natural, sem chamar atenção para o fato de que as ocorrências podem não corresponder à “realidade”, ao que de fato aconteceu: não, no filme a realidade é a que Doc experiencia. Há verossimilhança no caos.

Uma das maiores críticas negativas lá fora, quando o filme saiu, aliás, estava por conta de duas coisas: o suposto ritmo lento e a falta de entendimento causado no espectador. Coisas estas que se rebatem com facilidade: no filme continuamente sucedem eventos e mais eventos, novos personagens e situações que dão ao filme uma cadência ininterrupta, sempre interessante e instigante (embora tenha duas horas e meia de duração, pelas constantes novidades e o ritmo embalado, o tempo nem se percebe passando). Sobre a compreensibilidade: como falei logo acima, o filme foi feito para parecer saído de uma mente paranoica, confusa, embaralhada, tendo a sensação de estar diante de uma teia de acontecimentos muito mais complexa de que a compreensão (ainda mais a de uma mente dopada) pode conceber… Logo, não seria justo se tudo fosse amarrado e mastigado, já pronto apenas para ser engolido e esquecido depois…

O maior desafio fica mesmo por conta das inúmeras referências a ícones da cultura dos USA; a assuntos políticos: Nixon, o caso de Charlie Manson, facções que vez ou outra são citadas etc. O segredo é prestar atenção (ao menos na primeira vez) menos no mínimos detalhes e nomes que vivem aparecendo do que na interação entre os personagens, o que acontece em geral e aproveitar o (vistoso) passeio.

E, sim, o filme é engraçadíssimo, ele contém desde piadas gestuais e visuais – como a anteriormente citada -, até os bons e velhos trocadilhos (em termo de comparação, lembra bastante as piadas de Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu e Corra que a Polícia Vem Aí!

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A atuação de Phoenix é excelente em mostrar o personagem eternamente perplexo com o que encontra – ele lembra um cachorrinho doce, pasmo e assustado, balbuciando ao se deparar com o misterioso (mesmo que este seja algo que se encontre no dia-a-dia), começando palavras e frases cujos restos não ouvimos. Ele também leva a sério o seu trabalho, contudo. Tão a sério a fim de se encucar com as conexões cruzadas e desenhar um quadro tentando ligá-las todas; a fim de, terminado o caso de sua ex-namorada, ir ajudar Coy Harlingen – e de quebra cair em mais uma enrascada…

Todo o elenco também está espetacular: o conjunto de atores – que ainda inclui Reese Witherspoon (como estagiária da promotoria de justiça, que dorme ocasionalmente com Doc); Benicio del Toro (hilário como o advogado sem noção do protagonista); Martin Short (que rouba a cena em uma das mais engraçadas e bizarras aparições) -, está aqui tão livre e desenvolto que é uma pena quando aparecem os créditos e você ainda anseia por vê-los mais. (Ah! Maravilhoso está o trabalho de narração de Joanna Newsom – cantora e harpista, aqui em seu primeiro papel como Sortilège, a amiga esotérica, também hippie, de Doc, cuja sabedoria parece ser maior do que a de qualquer personagem e saber tudo o que está acontecendo ao redor, principalmente das coisas invisíveis. Sua narração permeia todo o filme tentando explicar os eventos, tecendo comentários poéticos sobre o que se passa – quase todos tirados literalmente do livro de Pynchon -, exibindo o que Doc pensa, criando uma presença onisciente – em algumas cenas, quando Doc anda de carro por exemplo, é interessante como ela está lá, mas quando a câmera vira não a vemos mais…)

Uma (das muitas) delícias do filme é a música de época que segue sempre tocando, como que fazendo o filme flutuar adiante. E a escolha é bem eclética: do folk rock de Neil Young, passando por surf rock, R&B, World Music, J-Pop, o Krautrock de Can etc. E ainda conta com a trilha original de Jonny Greenwood, do Radiohead, que já havia contribuído com PTA nas trilhas de Sangue Negro e O Mestre. Em Vício, Greenwood entrega um trabalho orquestral e sofisticado, contendo algumas composições na guitarra que acentuam o tom paranoico – como a excelente spooks-, algumas faixas que ajudam a criar tensão em certas cenas, e uma composição linda, Amethyst, que é ouvida em uma das cenas mais catárticas do longa.

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Outras coisas que se destacam demais são a composição das cenas, a decoração dos ambientes – com direito a muitas simbologias, como na cena da pizzada/santa ceia hippie -, a câmera confiante de quem sabe a hora certa para apresentar close-ups; situar o espectador em grandes cenários; panoramas; lentos arrastares progressivos aproximando-se pouco a pouco do que está sendo filmado… A fotografia foi feita com o cuidado de lembrar uma foto dos anos 70, um registro – com uma aparência às vezes granulada e outras como que sob um filtro envelhecido, linda de se ver na telona. Tudo aqui respira livre repleto de vida e exala beleza e carinho por uma obra de arte feita com esmero e pensada para permanecer.

Vício Inerente é um desses filmes em que a extensão de assuntos tratados é tão vasta que o espectador escolhe o filme a assistir e, dele, tira conclusões próprias. É uma comédia? é. É um filme político? também. É um mistério? um drama? um Film Noir? Sim, é tudo isso e, penso (e assim atesta o próprio diretor) é acima de tudo uma história de amor.

Ao final do filme ficamos sabendo o porquê do título – este é explicado quando, em menção a Shasta, se diz que ela é uma carga preciosa que não poderia ser assegurada por causa de vício inerente. A expressão, que vem de uma apólice de segurança marítima, refere-se a qualquer coisa que não se pode evitar durante um carregamento: ovos quebram, chocolates derretem, vidros se despedaçam… E Doc se pergunta o que isso teria a ver com ex-namoradas…

Pelo olhar de Doc observamos que por mais que passemos por um longo caminho de confusão, medo, abatimento, incerteza em relação ao paradeiro daqueles que amamos e ao nosso, a visão de nossa era desmantelando-se em rápida sucessão, deixando-nos sem nenhuma ideia do que virá a seguir…  ainda assim, há sempre uma luz que nos garante o direito da esperança.


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