A Bruxa (The Witch), 2015

A fonte  principal de todos os medos provavelmente reside em desconhecimento, ignorância. Avistar algo inteiramente fora de seu círculo de entendimento aproximar-se leva ao temor de que tal coisa irá afetá-lo também. E do medo parte-se facilmente para a falta de razão e a violência.

A Bruxa, primeiro filme do diretor Robert Eggers, utiliza essas características frágeis do ser humano em seu centro para construir um clima tenso de inquietação crescente, paranoia e histeria, gerando o terror a partir da exposição do psicológico das personagens conforme a desgraça progride e, assim, o senso de desespero, quando se entende, passo a passo, o caminho que todos ali percorreram.

William e sua família, sua esposa Katherine, sua filha Thomasin e seu filho Caleb, este entrando na puberdade, aquela encontrando seu caminho rumo à maturidade, e as duas crianças pequenas Jonas e Mercy, logo no início da história são vistos expatriados da comunidade cristã que frequentavam, por william estar perturbando os demais com suas interpretações próprias da Palavra de Deus – fato que será comprovado e utilizado como parte importante da narrativa.

Eles refugiam-se numa fazenda com campo para plantio de milho, além de criação de cabras, e não tarda para que percebam que o banimento foi apenas o início de seus problemas. Segue-se o desaparecimento do bebê recém nascido do casal, as provas de que a terra é inapropriada para a plantação e muitos outros acontecimentos cada vez mais estranhos que fazem os personagens ter a certeza de estarem amaldiçoados.

E é nessas reações de certeza demais que vamos entendendo as personagens melhor. O pecado, não importa se não há, está enraizado na cabeça de todos, mesmo os já pequenos – em uma cena o pai lembra ao filho adolescente do pecado orginal e como ele se estende até nós. Aparentemente a graça divina é esquecida. E mais estupidificante são algumas crenças tortas, com a de que o bebê sumido, e corretamente presumido morto, está no inferno por não ter sido batizado. É em um meio de tão total ignorância da fonte de sua própria míope, fanática fé que todos se encontram.

O que nos leva à bruxa do título. Eggers afirmou como suas pesquisas históricas o levaram a perceber que tais seres vivendo no meio dos habitantes dos ingleses recém migrados aos Estados Unidos no início do século XVII era uma realidade. Histórias de bruxas eram fomentadas de boca em boca, ganhando credibilidade, e assim as elas adquiriam vida. E então na paranoia de que elas estavam ao redor, conquanto não fossem vistas, qualquer um poderia ser uma – inclisive um membro de sua família morando contigo, inclusive crianças. Vale lembrar que o subtítulo de A Bruxa é A New-England Folktale (um conto popular, passado adiante e revestido de superstição), que reforça a noção de que o fabuloso convive com o cotidiano sem distinção, os dois inseparáveis, um tanto real quanto o outro por se acreditar assim.

O filme se passa um pouco antes da famosa caça (e execução) às bruxas em Salem e serve como um bom prelúdio ao evento, assim como se mantém atual pelo fato de tratar de seres humanos e as questões que os assolam, que são as mesmas hoje, independentemente da ação do tempo.

O diretor consegue trazer ao nosso tempo uma história remota a partir da já mencionada complexidade das personagens, sempre intrigantes e multidimensionais, (e parte desse êxito se deve às excelentes atuações, desde os mais pequeninos, aos atores adolescentes e os adultos. São atores desconheidos – a única que levemente se destaca é a atriz que interpreta a mãe, integrante do elenco de Game of Thrones – e ainda assim só deverão lembrar dela os fãs mais ardorosos da série) e também pelo maravilhosa capacidade de imersão do filme. Filmado em grande parte usando luz natural, quase podemos tocar, sentir e cheirar a floresta, os cenários construídos à forma da época, todo os arredores em que vemos essas pessoas. A trilha sonora, sedutora e desconcentante ao mesmo tempo, desempenha um papél importante em ajustar o tom de perturbação e pavor iminentes.

No centro de tudo, no entanto, está Thomasin, a menina encarando o fardo da maturidade que se aproxima. Ela é gradativamente temida por todos, o poder da estranha e nova fase de sua vida causa desconforto demais aos outros. A repulsa da mãe à garota parece dizer daquela como ela enxerga, num processo natural, no desabrochar da sexualidade, novamente um pecado. O pai, se de início demonstra ser com quem a menina mais pode contar, logo sua instabilidade e seu fanatismo surgem como ameaça. Mesmo sem sua vontade, Thomasin causa a desestabilização do meio em que vive.

E assim nos encaminhamos ao final fantástico, que nas linhas assumidamente alegóricas do filme encontra sua conclusão perfeita. Com esta, à luz de todos os acontecimentos, inúmeras interpretações surgem (e um debate em grupo será sempre bem vindo). Podemos ver na resolução um argumento para a necessidade do afastamento de um meio de intolerância e fanatismo; um rompimento com as amarras do passado rumo à independência; um caminho traçado em rumo ao amadurecimento; mais negativamente, uma ascensão final e total à desgraça. E muito mais sentidos dependendo do significado próprio que cada um carregar consigo e imprimir ao que viu. Uma coisa em comum em todas é que um divórcio tão profundo requer morte, real ou simbólica.


★★★★★

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