Na Vertical (Rester Vertical), 2016

Na vertical é um filme que desafia o espectador a decifrá-lo. Começa bem simples: um roteirista de cinema luta com a escrita de um filme, pela qual é constantemente cobrado, sem nunca sair da primeira linha. Enquanto isso, visita uma aldeia, conhecendo lá uma moça com quem tem um filho. Ela cuida junto ao pai de um rebanho de ovelhas, que necessitam ser vigiadas dia e noite por causa de lobos que sabem-se estar sempre à espreita. Também nesse vilarejo mora um jovem que o escritor acredita ter um bom rosto para cinema, e assim o importuna vezes sem conta com propostas para aquele participar de seu filme.

Mas logo vemos que na verdade o filme assume uma forma de fábula absurdista, evolvendo os elementos da narrativa em um véu de significados crescentemente oblíquos e distorcidos, com os quais quem assiste precisa ora se esforçar por achar algum sentido ou então recuar pasmado.

Primeiramente notamos como a sucessão de eventos não ocorre dentro de um período esperado de tempo. Assim, enquanto o protagonista ainda está começando a escrever seu roteiro, ele descobre que a moça com quem tem se relacionado está grávida, e logo depois o bebê já nasce. E o prazo de entrega do roteiro ainda é mesmo. A mãe inesperadamente rejeita o filho, deixando-o aos cuidados do pai.  Um bebê parece menos ser o que é, um bebê, do que alguma representação íntima de algo que se cria e guarda para si e se cuida. Um tesouro, uma ideia viva em evolução.

Da mesma maneira, tudo o que acontece a partir de então parece revelar não o seu sentido objetivo, mas um codificado em símbolos, os quais podem não dizer muito no momento em que são presenciados, mas de certa maneira conferem uma aura de estranheza ao filme, permanecendo na nossa mente depois que saímos da sessão, para que façamos com eles praticamente o que quer que queiramos. Uma metáfora que se faz obscura demais, convida-nos mesmo que involuntariamente a darmos o nosso sentido mais íntimo ao que vemos, respondendo por um sistema de sugestão quase tão livre quanto um teste de rorschach.

Este é um filme do diretor Alain Guiraudie, cujo trabalho anterior foi o thriller erótico hitchcockiano seguramente dirigido, Estranho no Lago, que nos fazia refletir sobre a natureza dos laços afetivos, que, não obstante destrutivos, os desejamos constantemente. Era uma abordagem completamente diferente, mais realista e direta.

Em Na Vertical, o diretor mantém seu domínio do ritmo que nos envolve lentamente em uma atmosfera de estranhezas, marcando bem a transição gradual da realidade assim como a vemos (ou pensamos ver) àquela proposta. É uma visão da realidade tão estrangeira a princípio, que enquanto se testemunha não sabemos muito o que pensar, que dizer o mais básico, se gostamos ou não. Há aqui também um senso de humor incrivelmente desafiador, convidando-nos a não fazer outra coisa a não ser rir nervosamente diante de situações extremamente incômodas. A fotografia, límpida e vívida, sugere um realismo que vai de embate com a apresentação surreal do campo das ideias, e que gera, paradoxalmente, uma imersão maior em um ambiente que, de outra forma, poderia ser insuportavelmente impenetrável.

Obscuridade e hermetismo excessivos podem causar efeitos extremos: ora nos afasta com indiferença, ora obriga-nos a, intrigados, cavar e cavar sentidos para aquilo que foi visto (ou lido ou ouvido etc). Como recebemos tal obra parece ser regulado por alguma afinidade interior que julgamos ter com ela, afinidade essa que criamos baseados no nosso entendimento parcial do que presenciamos. O que este que vos fala parece, então, ter visto ali, foi uma representação da nossa sociedade que impõe e exige o cumprimento de normas, vindo de todos o lados (e o que se rejeita facilmente é aceito pela pressão do meio), sempre plurais e contrastantes, sendo a única maneira de se sobreviver permanecendo de pé, parado, como que para não se deixar consumir por lobos.


★★★★☆

  • Visto no Festival do Rio de 2016
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