Blow-Up – Depois Daquele Beijo (Blow-Up), 1966

Um bando de mímicos socados em um carro correm pela cidade ordeira, fazendo um estardalhaço. O dia a dia transcorre sem aparente necessidade de perturbação. O bando para em vários locais para encenar uma brincadeira que põe à vista aquilo a que resume a convenção dos afazeres, dos prazeres, da busca de sentido de todos.

Depois Daquele Beijo (Blow-Up) é o tipo de filme que qualquer pessoa em sã consciência acharia entediante. Nada acontece. Por vezes a mente intranquila se pergunta quando vai haver o momento a revelar o motivo de se estar vendo tudo aquilo. Até que nosso ritmo se alinha ao do filme e nos rendemos ao domínio de Antonioni.

O diretor italiano mostra em sua carreira a dificuldade, se não inutilidade, de se estabelecer uma comunicação sólida. Já que somos seres de pensamentos e sentimentos tão alheios, como conciliarmo-nos entre nós mesmos. Aqui, como também em outros de seus filmes (especialmente em A Aventura), Antonioni direciona essa ideia de dissolução à própria estrutura de enredo das histórias.

O filme não se desenvolve a partir de eventos, de uma sequência de acontecimentos pelos quais podemos obter esclarecimento. Mas, de forma quase arbitrária, através do que for que esteja acontecendo, o entendimento vai se estabelecendo, não como uma construção sólida, mas um adensamento de névoa. Há o desafio de se tentar materializar abstrações.

E com isso brinca o diretor. Este está numa posição de descrença na verdade no fingimento, na verossimilhança, na apresentação de um mundo tão aparentemente real mas do qual não se pode obter nenhum sentido. De que adianta construir ponto por ponto uma corrente de eventos tão bem urdidos se depois o que permanecerá é isso apenas, uma armação?

As próprias redes de relações humanas revelam a dissimulação, sempre lenta e fastidiosa, que ocorre quando se procura obter do outro algo, alcançando ora uma satisfação vazia ora um resultado irrisório. Há uma tentativa pelo protagonista de comprar uma loja de antiguidades que primeiro é frustrada por um funcionário rabugento, e depois, na presença da dona, vê-se a necessidade de adulação, comprando uma hélice de madeira enorme que provavelmente não servirá para nada. Em outros momentos, duas meninas tentam fazer de tudo para serem fotografadas numa agência de modelos, mas, claramente inexperientes, servem apenas para satisfazer os desejos do dono do estabelecimento, prometendo fotografá-las no próximo dia.
Em certo ponto, o personagem principal, um fotógrafo, capta uma foto de um assassinato. Só que ele não sabe se tratar de um, tão escondido está o assassino, tão cuidadoso o preparo da cena foi feito: uma mulher anda com seu amante num parque, sobre a grama, o atirador nos arbustos. Quando percebe ser fotografada, ela vai inquirir sobre as fotos. Estas, quando muito ampliadas, mostram o homem escondido e o corpo do amante, morto quando o fotógrafo se distraía com a mulher.

Em vários momentos tem-se a impressão de se observar uma série de exercícios em distração. O protagonista sai com um objetivo em mente, apenas para acabar fazendo outra coisa completamente diferente. Nesse aspecto, esse é um filme de detetive às avessas, em que os personagens tentam repetidas vezes obter alguma resposta, mas se perdem no caminho, sem nem lembrar qual era o itinerário inicial.

A pergunta que parece ser feita é por que seguir pistas se o que se encontrará será uma enganação em forma de verdade? Parece haver uma afronta à tentativa de reproduzir com grande empenho a busca em direção a uma descoberta que será esquecida minutos depois.

Mas se há uma revelação aqui, é a lição que bem conhecem os mímicos, e estes a tentam ensinar: a de que mais importante do que está em evidência, é preciso aprender a trabalhar com o que não está lá.

★★★★★

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