Ressurreição, de Liev Tolstói

Tolstói é mais conhecido pelos grandes romances Guerra e Paz e Anna Kariênina, sendo fácil às vezes esquecer suas outras contribuições, a mais brilhante delas A morte de Ivan Ilítch. Ressurreição, assim como em relatos mais curtos como A sonata a Kreutzer e obras abertamente cristãs, vê o escritor russo buscando transmitir seus credos éticos e religiosos em uma forte história moral que transcende qualquer particularidade para atingir condições humanas que permanecem até hoje.

A história é sobre o príncipe (um título de nobreza na Rússia) Dmitri Ivanovich Nekhlyudov que, participando de um juri, vê Maslóva no banco dos réus, uma antiga empregada de uma de suas propriedades  a quem ele seduziu e que consequentemente se viu forçada a descer cada vez mais a patamares baixos de comportamento moral. Sentido-se culpado por ter desencadeado tal cadeia, começa no príncipe uma mudança completa em sua vida.

Tolstói, como um exemplar observador do comportamento humano que é, entende perfeitamente como mudanças assim não ocorrem de uma hora para outra, e assim segue com cautela, mas concisão (não é aqui que encontraremos uma trama cheia de sub-tramas periféricas, mas um relato direto), o mudar do pensamento do protagonista a uma destituição de sua conduta anterior rumo a um ideal mais puro, se não radical, de vida, em que abdica da exploração aos seus servos, procura estar mais sensível às necessidades dos outros, e começa a enxergar com clareza os absurdos burocráticos e injustos dos sistemas judicial e carcerário russo.

É neste último ramo que o romance se debruça, seguindo Nekhlyudov por tribunais e prisões, vendo a hipocrisia e o abuso de privilégios que os que estão em poder exercem, deixando de dar a atenção devida os juízes e demais funcionários públicos aos casos que têm diante de si por estarem demais acomodados com a situação vantajosa em que estão e esquecendo assim que aqueles esperando julgamento podem ter seus destinos injustamente selados por essa falta; a narrativa onisciente de Tolstoi oferece vários momentos tragicômicos em que nos é permitido saber o que pensam, por exemplo, um juiz: preocupado em chegar em casa e não haver almoço que comer por ter brigado com a mulher, desviando a sua atenção do julgamento a que preside. Também, e tão corajosamente e mais brutal é a mostra de como vivem os prisioneiros, maltratados, entre a própria sujeira, e tal demonstração choca se pensarmos na época em que foi escrito o romance.

Também presente está o subtexto e comentário religioso, que Tolstói deixa mais implícito visando um alcance e uma compreensão mais amplas do público, mas que não deixa de se manifestar em instantes em que condena a mesma religiosidade falsa de alguns, ou em partes chaves quando é necessário marcar o crescimento das personagens.

O texto publicado pela Cosac Naify e traduzido do original por Rubens Figueiredo (esgotado até que outra editora o reedite), como já dito, é bem sucinto, não deixando de ser uma leitura lenta, contudo; mas uma que se aplica às necessidades de se mostrar a evolução gradual da mente humana em busca de novos padrões de conduta.

Pecando levemente em algumas poucas passagens em que o escritor não consegue refrear sua vontade de propagar as verdades em que crê, transbordando ela em diálogos parcos em que o escritor parece mais estar conversando consigo mesmo,

Ressurreição, no entanto, prevalece como um conto moral dos mais bem realizados sobre a crueldade e hipocrisia dos privilegiados, da possibilidade de mudança de vida espiritual e prática e do poder do perdão, algo que, por si só, seria recomendado como leitura obrigatória aos dias de hoje.

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